23 de setembro de 2012

Looper - Assassinos do futuro

Estava eu na segunda passada tranquila no trabalho quando recebo o e-mail de uma amiga (leia-se Edna Silva) convidando para a pré-estreia de Looper - Assassinos do Futuro (Looper, EUA 2012). Eu confesso que na hora houve certa resisitência, afinal em plena segunda um filme que vinha calcado em viagem no tempo, assassinos do futuro e tudo mais, prometia fritar meu cérebro logo no início na semana.

Ainda bem que eu resolvi ir. O longa de Rian Johnson se passa num futuro onde a viagem no tempo é possível, mas a tecnologia é usada apenas no mercado negro. Joseph Gordon-Levitt é Joe, um "looper", um executor da máfia especializado em dar cabo de vítimas que são enviadas do futuro. Seu trabalho é matar "a encomenda" e dar cabo no corpo (não existe lugar melhor para isso do que um tempo em que a vítima sequer existe). Viciado, desregrado e com um plano, o protagonista se vê na maior encrenca possível para um looper: quando sua vítima foge. Pior ainda... quando a vítima é ele mesmo - ou sua versão 30 anos mais velha (Bruce Willis).

Parece confuso, e é mesmo. Mas é daquelas confusões interessantes, que te prendem. Junte à isso Jeff Daniels com um mafioso do futuro, meio que "gerenciador" dos loopers e Emily Blunt, uma moça do interior que acha que assusta com uma espingarda de sal. Ah, ainda tem uma criança do mal...(uma das coisas mais assustadoras da história mundial, sempre cola!)

Verdade seja dita: Levitt está fabuloso como a versão mais jovem de Bruce Willis. Ele teve o rosto modificado para se parecer com o astro e a maneira como ele imita os já famosos trejeitos de Willis é assustadora! Juro, além dos diálogos inteligentes, as boas tiradas e ótimas cenas de ação (além de uma deliciosa trilha sonora), a atuação de Joseph e semelhança com Willis é assombrosa! Bem, Willis dispensa comentários, arrasando entre tiros e pontapés, como sempre.

As cenas em que os dois estão frente a frente são surreais. Toda a ironia que acompanham os bicos de Bruce Willis está perfeitamente replicada no semblante de Joseph. Aliás o menino vai longe viu. depois de arrebentar em 500 dias com ela, ele marcou presença em arrasa quarteirões como A Origem e Batman - O cavaleiro das trevas. Todo mundo de olho no mocinho agora.

Eu sempre achei filmes de ficção científica uma coisa bem arriscada. Tem que ser muito cabeça e muito louco pra fazer uma história dessas dar certo, fazer com que você saia da sala e fique com a sensação de que não entendeu nada. Óbvio que o mais legal desses filmes é a discussão que se segue (geralmente com os amigos, para saber se você viajou ou não na batatinha). Nesse caso eu tiro o chapéu para Rian Johnson. Você deixa o santuário da sétima arte com a perfeita sensação de que o que acabara de ser presenciado é algo perfeitamente normal. show de bola!

Indicado para quem curte ficção, Bruce Willis,muita ação e uma pontinha de De Volta para o Futuro com Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. Ah, adicione um "Q" de Poltergeist e voilá!

beijos

25 de agosto de 2012

O Ditador

Menos escatológico e muito mais ácido. É assim que eu defino o novo filme do comediante Sacha Baron Cohen. O Ditador (The Dictator,Eua 2012) é mais uma crítica aos modelos estabelecidos pela sociedade, dessa vez o alvo são os regimes políticos. Cohen é Aladeen, o líder despótico, misógino e antissemita do país fictício Wadiyan. Sua vida de governante tirano se resume a obter favores sexuais de estrelas de Hollywood, jogar videogame em seu Wii personalizado e executar todos os que ousam discordar de suas ideias.

Seu sonho é ter uma arma nuclear, pra ficar igual aos seus "amigos", mas diz ao mundo que está enriquecendo urânio para “fins pacíficos”. É claro que o resto do planeta desaprova suas ambições nucleares e ele é obrigado a fazer uma viagem aos Estados Unidos onde pretende convencer a ONU da "inocência" de suas intenções.

As tiradas já começam no discurso do próprio Aladeen ao declarar ao povo que o urânio jamais será usado para fins maléficos, o político começa a rir e já dá uma ponta do que será o restante do filme. A primeira dica já é dada: discursos políticos não devem ser levados a sério.

Nessa viagem à América os problemas de Aladeen começam. Ele tem sempre a tiracolo um sósia cuja função principal é levar tiros em seu lugar. Só que desta vez seu tio e braço direito Tamir (Ben Kingsley - mais uma vez no papel do tio traidor e ambicioso) tem planos diferentes. Quer substituir o real ditador pelo sósia, assumir o poder e abrir Wadiyan aos exploradores de petróleo.

Depois da traição, Aladeen fica perdidinho em Nova York sem sua barba e aos cuidados de Zoey (Anna Faris), uma feminista, amante de produtos orgânicos e pacifista de carteirinha. Está dado o pano de fundo para Cohen explorar sua verve cômica politicamente incorreta.Já começa derrubando o mito do voluntariado sem regras, da organização em células do tipo "aceito você como você é, ajude como puder" e que as pessoas são capazes de se organizar sem um "líder".


O filme tira sarro de grandes ditadores recentes como Saddam Hussein, Muammar Gadaffi, Kim Jong-Il e Ahmadinejad, mas também não poupa os ocidentais. Do mesmo jeito que faz um quadro satírico dos déspotas citados, o longa não poupa a elite de Hollywood, as grandes corporações que exploram petróleo nos países árabes e faz uma crítica contundente em seu final da farsa autoritária a manipuladora que existe por trás das chamadas grandes democracias ocidentais. Na minha opinião o melhor momento do filme.

A produção arranca grandes risadas assim como deixa alguns meio desconfortáveis com algumas cenas mais, digamos, agressivas (a reação do povo no cinema é ótima!). Mas como sempre, o mais bacana é a maneira nada sutil como Cohen faz suas críticas ao mesmo tempo que ridiculariza algumas situações tidas como corretas pela sociedade.

Enfim, uma excelente opção para que quer fugir do humor tão controlado e obrigatoriamente politicamente correto dos dias de hoje.

beijos

29 de julho de 2012

Batman - O Cavaleiro das Trevas ressurge

Nêmesis: termo muito utilizado no cinema e nos quadrinhos que designa um ser totalmente oposto ao outro e ainda assim muito próximo. Se fosse para descrever todo o contexto de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (Batman – Dark Knight Rises), com uma única palavra, eu provavelmente escolheria essa. E eu vou explicar o porquê, mas sem entregar spoilers do filme, claro. Porém, fica aqui a recomendação de rever os dois primeiros, pois muitas pontas descascadas neles são amarradas agora.

Vamos à história. Gotham City está segura. Já faz oito anos que a morte do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) serviu para que leis mais duras fossem criadas e limpou a corrupção do departamento de polícia. Logo, o Batman, por não ser mais necessário saiu de cena levando a culpa pela morte Dent. Assim como Bruce Wayne, mais uma vez vivido por Christian Bale que se tornou um eremita, nunca mais fez aparições públicas e vive recluso em sua mansão. E seu corpo pagou o preço dessa escolha. 

Tudo muda, todavia, com a chegada de Bane (Tom Hardy), um terrorista abrutalhado e inteligente, cuja origem cruza com o passado de Wayne e o fará vestir mais uma vez a capa e o capuz para proteger a cidade e aos seus amigos. No meio dessa loucura, ainda aparece Selina Kyle (Anne Hattaway), uma hábil ladra que oscila entre uma pedra no sapato de Bruce Wayne e uma aliada importante para o Batman – que não está no auge de sua forma física – na batalha para salvar Gotham.

A “Era Nolan”

Assim como nos dois primeiros filmes, o diretor Christopher Nolan (A Origem, O Grande Truque) nos brinda mais uma vez com uma cidade real vivendo situações irreais. Entretanto, totalmente verossímeis. Cada pequeno take apresentado nos dois primeiros filmes faz sentido neste último, como uma gigantesca colcha de retalhos que já estava pronta e foi desmanchada ao longo de 10 anos. A impressão não é outra senão a de que toda a trilogia já havia sido concluída na cabeça do diretor.

Da mesma forma que os elementos da trama se amarram, as atuações também são dignas de nota. Nolan conduz o elenco como uma orquestra em sincronia, onde nenhum instrumento está acima do outro fazendo com que todos sejam ouvidos. As tiradas de Lucius Fox (Morgan Freeman) não se sobrepõem a figura paternal do mordomo Alfred (Michael Caine), assim como a sensualidade de Selina Kyle não ofusca a frieza de Bane. Até mesmo a insossa Miranda Tate (feita pela oscarizada Marion Cotillard) mostra do que é capaz nos atos finais do filme.

Se o finado Heath Ledger roubou a cena como o Coringa no longa anterior, o mesmo não acontece com o Bane de Tom Hardy. Embora seja dono de um talento singular para se expressar mesmo com aquela máscara. Hardy não desponta. E esse é um dos pontos positivos do filme. Com isso, há espaço para desenvolver os dilemas morais de Selina Kyle, além da estruturação de personagens que acabaram sendo uma grata surpresa, como o policial John Blake (Joseph Gordon Levitt). E, claro, Nolan nos pergunta mais uma vez se Batman é Bruce Wayne usando uma máscara ou o contrário.

Do papel para a telona

Entre todos, o Cavaleiro das Trevas Ressurge é o que mais apresenta elementos vindos dos quadrinhos. Começando pela própria figura de Bane, criado para ser um rival forte tanto física como intelectualmente (um nêmesis) que despontou na bombástica saga A Queda do Morcego (mais detalhes aqui in English)

Mas, vemos também muita coisa derivada de outra saga que fez barulho no universo do Morcego: Terra de Ninguém (mais detalhes aqui in Portuguese) Entretanto, o quanto dessas duas sagas estão presentes no filme, você vai ter que ir ao cinema para descobrir. E, por favor, se puder, faça isso em IMAX! O Morcego merece! 

Nota do Cineopses: Óbvio que esse texto não poderia vir de ninguém menos que Carlos Bazela. Ninguém, no planeta, teria mais autoridade para falar do Morcego que ele. Afinal, Batman e Bazela são praticamente sinônimos. O Cineopses, mais uma vez, agradece querido Bazela! 



9 de julho de 2012

Prometheus


Olá queridos leitores do Cineopses! Depois de um bom tempo sem postar aqui, ficou em minhas mãos a árdua tarefa de falar sobre Prometheus, o novo filme do diretor Ridley Scott – cujos maiores feitos incluem, entre outros filmes aclamados, Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), Gladiador (2000) e Rede de Mentiras (2008) – com o mínimo de spoilers possíveis. Vejamos se eu consigo.

Para quem ainda não sabe do que se trata, o filme conta a história do casal de cientistas Elizabeth Shaw, vivida por Noomi Rapace (a Lisbeth Salander da versão sueca de Os Homens que Não Amavam as mulheres) e Charlie Holloway (oriundo de papéis menores na TV como a série The O.C.), que procuram uma solução para o enigma da origem da humanidade. 

Após encontrarem sinais gravados em cavernas de diferentes partes da Terra, a dupla parte ao encontro dos seres que teriam criado a raça humana em um planeta longínquo a bordo da nave Prometheus. Tudo, entretanto, se transforma em uma grande batalha quando se descobre que nossos “pais” escondem um terrível segredo que pode acabar com todos nós.

Todo o hype em torno de Prometheus se deve ao fato do filme foi originalmente concebido para ser um prelúdio de Alien – O Oitavo Passageiro (também dirigido por Scott em 1979) e, por consequência, de toda a franquia que ele originou. Entretanto, durante o processo criativo – Leia-se conversas intermináveis entre o diretor e os roteiristas Jon Spaihts e Damon Lindelof – o filme virou algo novo, uma história que se sustentaria por si só, mas que ainda seria capaz de contar a origem da criatura mais famosa do cinema e por meio de elementos da sua mitologia

Assim, logo após a descoberta da última caverna, o filme salta para bordo da Prometheus, que já no final de sua jornada de dois anos com destino ao planeta LV-223. Lá dentro, somos apresentados ao andróide David (Michael Fassbender) à fria executiva da corporação Weyland-Yutani – que financia a expedição e é proprietária da nave – Meredith Vickers (Charlize Theron) e ao capitão Janek  (Idris Elba). 

A exploração do planeta tem início imediatamente após o pouso e o destino é um grupo de cavernas subterrâneas que mais parecem uma instalação abandonada do que uma obra da natureza. Aqui as perguntas começam a ser respondidas. Shaw realmente encontra nossos criadores, a quem chama de engenheiros, mas se depara também com algo muito pior, que divide a tripulação da Prometheus e pode trazer terríveis consequências se for tirado dali.

Contar mais daqui em diante estraga toda a surpresa, mas eu adianto que o filme apenas fica melhor – e mais estranho. Embora o filme tente a todo o momento ser algo nada visto antes (e já pelo roteiro , ele consegue) todos os elementos de outros filmes de terror espacial estão ali e para a nossa alegria tudo que dava a identidade da franquia Alien também está. Para ver Prometheus vá preparado para se surpreender. O filme pede mente aberta e bastante reflexão, principalmente depois que termina e mesmo o que parece ser totalmente óbvio esconde algo ainda maior e aberto a diferentes interpretações. 
 
Já para os “iniciados”, como eu, ao universo da lagartixa negra, que foram obrigados a engolirem a seco dois péssimos Alien Versus Predador,  apenas para ver sua criatura favorita na telona, eu peço paciência. Embora o desenrolar do filme Ridley Scott não nos esqueceu e a última cena, pouco antes dos créditos finais é o presente dele para todos nós. 



Nota do Cineopses: O Bazela já é amigo há muito tempo e é sempre uma honra enorme contar com ele por aqui. Eu mesma não me atreveria a dizer nada sobre Prometheus (apesar de ter visto) pois o garoto é autoridade em Alien. Só confiaria nele para falar no assunto. Volte sempre querido!

4 de julho de 2012

O Espetacular Homem-Aranha

Confesso que estava bem receosa em relação ao reboot do Homem-Aranha. Afinal eu bem que ia com a cara do Tobey Maguire, curti a direção do Sam Raimi e acabei me acostumando à eles (apesar de detestar o capítulo final da trilogia). Dito isso, é justificável meio receio quando ouvi que um novo aracnídeo estava chegando por essas bandas!

Alegria na terça-feira quando fui convida para prestigiar a pré-estreia da tão aguardada releitura: O Espetacular HOmem-Aranha (The spectacular spider man, EUA 2012). Mas vamos logo ao que interessa.
O início a gente conhece Peter Parker, menino órfão, mora com os tios, é zuado pelos amigos, nerd e tem uma paixonite aguda por uma colega. Lá pelas tantas é mordido por uma aranha e se transforma em super herói.Nesse meio tempo vai descobrindo seus poderes e curtindo eles. E não, o filme não parte da fase adulta de onde o terceiro longa de Sam Raimi parou.

Ok? Não! A nova versão vai mais fundo na história do nosso aracnídeo predileto. Descobrimos que são os misteriosos pais de Parker, qual o envolvimento do pai dele, Richard Parker (Campbell Scott) com a Oscorp. Aliás essa fixação com a busca em descobrir as várias faces do pai é que dá o tom do filme. 

Fora isso temos Peter Parker (Andrew Garfield). O cara mandou muito bem! Tem algo de novo nesse nerd, não mais aquela aura de bobão. Ele é "moderninho" te até um pouco de atitude e muito carisma. Outra coisa legal?  Parker criou os próprios lançadores de teia, como no gibi, ao invés de produzi-la biologicamente. Na minha visão o subidor de paredes ficou mais humano.

Acompanhamos os tombos, as bolas foras e o primeiro amor que não foi por Mary Jane Watson! Nos quadrinhos a primeira a balançar o pobre coraçãozinho de Parker é Gwen Stacy (Emma Stone) a mesma do filme.

Passada toda a introdução o longa de Marc Webb (do magnífico 500 dias com ela) nos brinda com o cabeça de teia em muita ação e tensão também. Tem algo de bem maduro nas relações entre os personagens, acredito que seja uma contribuição de Webb que não tinha no currículo (até então) nenhum filme de ação assim.

Ah sim, não podemos esquecer do vilão! Um cientista frustrado pela perda de um braço, com um histórico bem nebuloso com pai de Parker também, que tomado pela ambição se transforma uem um lagartão horroroso querendo destruir a cidade (não, não é Cloverfield). O tal do Dr. Curtis (Rhys Ifans) é bem estranho mesmo.

Tudo isso pra dizer que não há receio. O filme surpreende, tem ação, o protagonista convenceu e , melhor que isso, a produção saiu do óbvio e consegue dar prazer ao espectador. Com certeza muitos discordarão de mim mas, me conforta pensar que outros tantos concordarão. Afinal, 10 anos depois da bem-sucedida trilogia do aracnídeo foi muita ousadia dos estúdios e do produtor Avi Arad (o mesmo dos primeiros) se arriscar em um novo começo.

E mantendo a tradição, Stan Lee dá o ar da graça no longa. Um fofinho esse gênio!

Nota importante: aos fãs do quadrinho me perdoem a ignorância. Minha opinião é baseada nos filmes hein. HQ ainda não é muito a minha praia.

Vejam depois e voltem pra contar!
beijos

23 de junho de 2012

Toda forma de amor

Beginners (iniciantes). Esse é o título original do longa de Mike Mills que por aqui ganhou o nome de "Toda forma de amor (EUA,2010). Oliver (Ewan McGregor) é quem nos conta essa história, ou histórias para ser mais clara.
Depois de 44 anos de casamento, após a morte da esposa, seu pai Hal (Christopher Plummer) se assume gay, aos 75 anos. Nem bem a notícia é assimilada pelo nosso narrador, o mesmo pai descobre que tem câncer em estado terminal. Essas duas notícias vão dar o rumo da história inteira.

Oliver me parece um sujeito bem fechado, não gosta de se atrever ou arriscar. Leva a vida na maciota, sempre com a lembrança do casamento frustrado de seus pais (ainda que longo, o enlace não foi bacana). Essa convivência com a mãe, uma mulher que sabia da opção sexual do marido mas arriscou casar-se acreditando que o mudaria, marca Oliver para sempre, determinando sua personalidade.

Vemos seu pai, aos 75 anos, assumindo-se gay e se entregando completamente à um relacionamento com um homem mais novo, um recomeço maravilhoso, uma segunda chance ao amor. Vemos Oliver se apaixonar por uma atriz (Mélanie Laurent), uma garota aparentemente de bem com a vida mas tão profunda e marcada quanto Oliver.

O filme é uma belíssima ode ao recomeço, aos nossos e aos dos outros. À maneira como direcionamos nossas vidas e apostamos na tão esperada segunda chance e à maneira como encaramos o recomeço daqueles que nos cercam.

O roteiro é de uma simplicidade arrasadora. Uma trilha sutil, dedilhada, diálogos certeiros, uma narração mansa que dita o ritimo e nos envolve. Fora isso ainda temos um elenco monstruoso. O olhar profundo de McGregor arrebata a gente.  A tranquilidade ao contar os fatos, a maneira como aceita as decisões do pai (mesmo que as vezes não concordando) realmente convencem. Temos Mélanie, lindíssima, que perturba com uma presença que ao mesmo tempo quer passar alegria mas te deixa aquela sensação de uma máscara. E Christopher... sem palavras. Louvável. Merecidíssimo o reconhecimento com o Oscar de Melhor ator coadjuvante em 2012 além do Globo de Ouro.

Somos levados pelo narrador a acompanhar a história da morte de seu pai. Não é uma história triste, pelo contrário, é motivadora. Pela maneira como ele nos conta, óbvio há uma melancolia no ar afinal é o pai dele, mas a maneira como seu pai encarou esse recomeço é maravilhosa. Fiquei bem pensativa depois.

Uma cena em particular mexeu demais comigo: Oliver mostra a Mélanie o perfil que sei pai fizera para "atrair" interessados. Depois da leitura, ela com a voz embargada diz: "Ele não desistiu". Isso é, no mínimo, intrigante uma vez que a gente desiste tantas vezes de tantas coisas em um mesmo dia. Coisas pequenas mas que se somadas justificam um enorme pacote de oportunidades perdidas.

O filme nos mostra diversas versões de recomeços, de amores, de chances. Amor pela arte, pelo sonho, por um gracioso cahorro, pelo recomeço, pela fé, amor pelo medo (por que não?), amor fraterno, entre homem e mulher, entre amigos... enfim.

Assumo que fiquei bem comovida com o longa, que é alegre sem ser hilário, é melancólico sem ser triste e carrega uma mensagem linda sem ser enfadonho.
Dali concluimos que não importa a idade, somos sempre iniciantes nessa jornada. Vá ver e depois me conte.

beijo

18 de junho de 2012

Deus da carnificina

Acabei de ver, há exata 1 hora atrás, o novo filme de Roman Polanski. Só o nome do diretor já me dá uma vontade louca de ver, não interessa se é bom ou ruim. Felizmente, como quase tudo o que ele fez, o fime é mais uma prova de competência ma arte de contar uma boa história.

Não só a história. Os atores escolhidos são ninguém menos que Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly. Mas vamos ao que interessa.
Tudo começa em um parque onde dois adolescentes brigam. Um bate, o outro apanha. Um pega um galho de árvore, o outro perde dois dentes. Enfim, mais um dia no parque. Logo depois estamos na casa do casal Longstreet (Foster e Reilly), que parecem estar fechando uma pauta do que depois viria a ser uma conversa "adulta" com os pais do agressor, o casal Cowan (Winslet e Waltz).

O que começa como uma conversa civilizada de pais tentando entender a atitude dos filhos se revela em um grande palco de diálogos impagáveis depois. O filme inteiro se passa na sala da casa do casal Longstreet.

De um lado temos pais que, inicialmente, medem as palavras para não acusar o filho do outro casal. Do outro, pais que tentam a todo custo não louvar a atitude violenta do filme. Junte a isso personagens únicos, cada um brilhando de maneira diferente com interpretações impagáveis. 

Minha percepção é que o filme é um embate de paradigmas. Temos Penelope Longstreet (Foster) como uma mãe preocupada com a fome mundial, a situação dos países africanos e o espírito de coletividade. Seu marido (Reilly) aparentemente é um homem submisso, que acata e defende tudo que sua mulher fala. Alan Cowan (Waltz) é um advogada ocupado que não parece se importar muito com o tema discutido na sala. Finalmente temos Nancy Cowan (Winslet) uma corretora de seguros fina e contida.

Os papéis caem quando a situação foge do controle na sala. Quando as crianças já não são o centro das atenções mas sim as vidas dos casais presentes, a coisa fica bem feia. Vemos que uma pessoa preocupada com questões sociais não é bem um ser coletivo. O maridão submisso resolve mostrar quem realmente é, um ogro de mão cheia. O casal fino e requintado não tem a menor educação ou senso de justiça. Entre acusações, náuseas, choro e bebedeira temos a impressão de estar no teatro.

O filme é baseado na peça "God of Carnage" de Yasmina Reza, que também assina o roteiro, e é mais uma prova que no final do dia, o que segura mesmo um bom filme são seus personagens e um roteiro sólido. Não se engane ao pensar que, por ter apenas um cenário, o longa é chato é monótono. O que não falta na obra de Polanski são momentos de tensão, diálogos ricos em acidez, e também em falsidade, e com certeza ótimas gargalhadas.

beijo 

7 de abril de 2012

Shame

Eu acho uma delícia quando vejo um filme desconhecido, gosto de algum ator e um tempo depois ele está super no auge. Là nos idos de 2008 vi pela primeira vez o filme Hunger (depois a gente fala dele) e Michael Fassbender chamava atenção. Mais pra frente ele apareceria no excepcional Bastardos Inglórios e, mais tarde ainda, cairia nas graças da galera como Magneto no X-Men Primeira Classe.

Merecido, o cara é bom. Mas o assunto aqui é o último filme que vi dele, o Shame ( Shame, 2011). O mote a história de Brandon (Fassbender) um cara boa praça e bonitão viciado em sexo. Mas não um tipo "mulherengo" , pegador. Aqui ´vício é patológico, rege toda a vida do coitado e não parece nada divertido.

Uma vez o Papa do trash, o cineasta John Waters disse que "É considerado OK em Hollywood ter cenas de sexo nos filmes, contanto que as pessoas envolvidas não pareçam estar se divertindo. Se elas estão, é pornografia. Se não estão, é arte" . Vou dizer pra você a impressão que eu tive é que o diretor queria fazer um filme pornô mas não tinha coragem, daí resolveu jogar um dilema ali e tornar a vida do protagonista uma miséria pra poder chamar de arte.

Justiça seja feita, Fassbender está impecável. Completamente vunerável ao personagem, se expôs (e como o fez!) bastante mas o resultado final é meio superficial, na minha humilde opinião é claro.

O diretor Steve McQueen ficou me devendo algumas explicações. É claro que eu curto quando algumas coisas são deixadas à mercê da nossa imaginação nos longas mas não tudo né! Carey Mulligan é Sissy a irmã doidinha e desprovida de amor próprio de Brandon. Por causa dela, aliás, o filme sofre um abalo.

Brandon não chega a sofrer socialmente por causa do vício, mas é nitído que é escravo dele. Sua rotina é 100% planejada para que ele possa satisfazer essa necessidade por sexo durante o dia. Chega a ser angustiante, juro. Acho que esse tipo de vício muitas vezes ainda é bem-visto pela sociedade, afinal, é sadio gostar de sexo. O que o longa tenta mostrar é que não é tão sadio assim.

Enfim, jamais diria que a produção não vale a pena. Longe disso. É orgulhoso ver atuações como as de Fassbender e Mullingan mas, ao mesmo tempo, bate uma revoltinha por McQueen não ter tirado mais proveito de um material tão rico. Me incomodou o fato de ter sequencias muito longas sem propósito, cansativas sabe. Fiquei com a impressão de que faltava assunto (o que não era o caso né).

Faça assim, vá ver e depois me diga ok.

beijos

11 de março de 2012

A mulher de preto

A vontade de ver Daniel Radcliffe fora do corpo do Harry Potter (que eu adoro!) me levou ao cinema hoje para conferir "A Mulher de preto" (The woman in black, 2012). Ah, o gosto por alguns sustos também contribuiu para essa decisão.

Vamos lá: advogado viúvo e com um filho vê sua carreira por um fio depois que a morte da esposa o desestabiliza emocionalmente. Decidido a reverter a situação, vai para o interior do país resolver uma encrenca de uma mansão cuja dona falecera recentemente.

O filme investe mais na atmosfera de suspense/terror que na ação em si. Imagine que não há nada mais aterrorizante que ser advogado, procurador ou investigador em filme de terror. E mais, não consigo pensar e paisage mais propícia para esse gênero que o interior ou litoral da Inglaterra. Cruzes! Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) se enfia nesse fim de mundo pra tentar resolver a vida. A mulher de preto do título é o espírito perturbado que Kipps encontra no local.


Dos longas que a Hammer Films - produtora britânica famosa por seus terrores góticos na metade do século 20 - realizou desde que voltou sob nova direção em 2008, A Mulher de Preto é o que mais se aproxima da linha consagrada da Hammer. Talvez venha daí a impressão de que seja um filme à moda antiga, que se preocupada não só com a direção de arte sinistra e com sustos de vultos, mas principalmente com a tal atmosfera.

Outra coisa bacana do filme é a briga entre as personalidades, o choque cultural dos personagens. O enredo não é novo. Morador da cidade grande (Kipps é londrino) chega no interior e não leva muito a sério as crendices dos nativos. Se vale da razão para desvendar as misteriosas e fatais aparições da tal mulher de preto.

O diretor James Watkins fez um trabalho bem digno contextualizando o longa dentro desse estilo de terror, destacando bastante a melancolia dos personagens. Essa linha mais gótica do terror não se "assusta" tanto com o sobrenatural. A impressão que dá é que a turma se conforma com ele e torce pra não ser a vítima da vez. Vai entender né.

Depois de tudo isso conclui que filmes que mesclam bonecas de porcelana, crianças, cadeira de balanço e brinquedos bizarros não são recomendáveis pra quem tem medo da descarga do banheiro (longa história).

Em suma, vale o ingresso sim, o mocinho ex-Potter forever mandou bem.

Veja lá e me conte.
beijos

22 de fevereiro de 2012

Marty: um legítimo working-class hero

Com um enredo absolutamente simples, Marty (EUA, 1955) é um filme muito eficaz do ponto de vista dramático.


Contando a história de um açougueiro de meia-idade que não consegue encontrar uma garota com quem se relacionar, a obra dirigida pelo então estreante Delbert Mann não deixa de ser tematicamente ambiciosa ao evidenciar, em plena década de ouro da história recente dos Estados Unidos (quando surgem o Rock’n’Roll e seus “bad boys” James Dean e Marlon Brando, o selvagem), os medos e dúvidas de um ítaloamericano de coração mole e cabeça dura.


Nesse sentido, aspectos como o ambiente social em que o personagem-título está inserido (destaque para a crueza machista dos amigos suburbanos de Marty) e a relação invasiva/dependente entre ele e sua mãe italiana são essenciais para que percebamos os dilemas e as pressões a que Marty está diariamente exposto. Claro que nem tudo é roteiro e é preciso dizer que Enest Borgnine entrega a atuação de sua vida ao solitário Marty.


Essa cruel solidão é substituída por uma cruel incerteza quando Clara, uma adorável professora, surge em sua vida (em mais um sábado à noite no clube Stardust Dance Hall). Como não poderia deixar de ser, ela também se sente solitária, não muito bonita e perto de se considerar “definitivamente solteira”.


Pronto. Aí está a grande “trama” do filme: o garoto solitário encontra a garota solitária. Nenhuma morte dolorosa, nenhuma grande guerra atrapalhando a “lua-de-mel” parisiense.

Claro que ele terá de suportar uma grande resistência por parte da família dela e lidar com muito ciúme do lado de sua mãe e amigos, mas não há nada além disso, no bom estilo “a vida como ela é”.


De maneira astuta e sofisticada, o roteiro de Paddy Chayefsky parece entender que não é preciso criar conflitos outros. Não há drama maior do que contrariar todos que o cercam em nome de algo tão abstrato, e incerto, como o amor.


Ainda assim, é o que nos resta. E devemos muito a Marty por isso.


Nota do Cineopses 1: Em 1959, em Moscou, foi o primeiro filme estadunidense visto na União Soviética desde a Segunda Guerra Mundial
- Este é o remake de um filme de TV de 1953 do mesmo nome, com Rod Steiger no papel-título
- Com 90 minutos de duração, é o menor tempo de execução de qualquer filme a ganhar o Oscar de Melhor Filme
- O primeiro filme americano a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes

- Em 1956, conquistou os Oscars de Melhor Ator (Ernest Borgnine), Direção, Melhor Filme, Roteiro e foi indicado aos de Ator Coadjuvante (Joe Mantell), Atriz Coadjuvante (Betsy Blair), Direção de Arte e Fotografia


Nota do Cineopses 2: Sim, até que enfim esse humilde blog foi agraciado com a presença dele, Daniel Consani! Jornalista, editor, escrivinhador, cinéfilo, fã de zumbis e outras coisinhas atípicas, ele tarda mas não falha! Curtiu? Conta pra ele: danielconsani@hotmail.com

Dani, o Cineopses agradece!! Volte sempre!