12 de julho de 2009

Sozinha, sozinha...

Transcrição fiel de um papo que tive com uma grande amiga minha na sexta-feira:
- E aí, como você está meu bem?
- Sozinha, sozinha. Pelo menos ainda tenho o twitter, e você?
- Sozinha, sozinha e, ainda por cima, sem twitter. Não consigo atualizar aquilo com frequência.

Uma semana antes dessa conversa fui ao cinema ver o novo filme da Emma Thompson (sou fã dessa inglesa) e andava matutando como colocaria isso no blog não apenas em forma de sinopse, nossa proposta no Cineopse nunca foi essa, mas trazendo para aquele roteiro, pitadas da nossa realidade.
Já aviso que o filme foi classificado por muitos veículos como “doce”, “açucarado” e até mesmo “gostoso”. Portanto, se você não é adepto desse tipo de história, a gente se vê em outro texto.

O longa “Tinha que ser você” (Last chance Harvey ,Reino Unido/EUA 2008), gira em torno da vida de Harvey Shine (Dustin Hoffman), músico americano decadente que ganha a vida fazendo jingles para propagandas. O cara vive sob a pressão de poder perder seu emprego para seu assistente, que é mais jovem, suporta o desprezo da filha e da ex-mulher além de ter a consciência de que é totalmente substituível na vida delas. Pior que isso, ele nem sabe quando isso aconteceu e nem onde ele deixou de existir pra elas. Do outro lado do oceano, na fria Londres, temos a Kate Walker (Emma Thompson) que trabalha fazendo pesquisas no aeroporto, parando as pessoas e fazendo a cruel pergunta “o senhor teria um tempinho?”, é solteira e ainda vive às voltas com a mãe que insiste em lhe arrumar um parceiro além de pensar que seu vizinho é um psicopata polonês. Enfim, a vida da moça não é nada fácil.

O moço Harvey recebe o convite de casamento de sua filha e vai até Londres para a festa. Não sei como, mas ele ainda é um cara bem-humorado, ou pelo menos finge ser né. Ao contrário de Kate que é completamente cética e não acredita mesmo em nada que tenha a ver com relacionamentos. No fim você descobre que é mais uma forma de se proteger do que característica mesmo. Ok, voltando. De um jeito bem incomum os dois se encontram e inicia-se uma gostosa conversa e consequentemente, a afinidade. Eu não vou contar o resto, paro por aqui. O filme seria outra historinha estilo cinema em casa não fosse pela atuação desses dois monstros do cinema. Uma história de amor maduro, outro olhar sobre os dramas, as angústias e as dores da nossa eterna busca por ele, o amor.

Imagine você, com mais de 50 aninhos, já sem aqueles sonhos românticos e aquele pique pra sair para a caça? Sendo sempre apontada pelas amigas como a largada. Você é aquela pra quem todos sempre querem apresentar alguém, afinal não custa nada dar uma mãozinha né. Você é bonita, simpática, inteligente, interessante e ...sozinha! Por quê???? E você nem precisa ter 50 pra viver isso, infelizmente cada vez mais cedo isso acontece com homens e mulheres do mundo inteiro. Quando eu disse que os dois protagonistas fazem a história valer muito a pena, é porque os sentimentos são transmitidos pelo olhar deles. Todas as experiências de amores passados por vezes não são suficientes para nos fazer tomar vergonha na cara e aprender a se controlar. Quando menos se espera lá estamos nós, dando outra chance pra ele.

Me lembrei desse filme na sexta ao conversar com minha amiga e me entristeci ao me dar conta que eu faço parte de uma geração que nem tem toda a experiência de vida ou tempo de estrada da Kate mas já estão descrentes. E não é drama nem pessimismo. É só sentar com uma turma e você vai ver que o que digo é verdade. A gente não segue adiante porque já sabe no que vai dar, e são poucas as vezes que erramos. Geralmente aquela vozinha que grita CUIDADO! Está certa.

Eu confesso que até chorei em determinada parte do filme, quando o Harvey vai até a Kate pra se declarar e blá blá blá e ela já termina tudo ali por medo. E a frase é justamente essa “eu não sou nenhuma menininha pra me iludir, já sei onde isso vai dar”. Triste, mas verdadeiro. Cinema é cinema e por isso por mais que os roteiros se assemelhem às nossas histórias, nossos finais são bem mais trágicos. E assim é a vida, a gente nasce, aprende a se comunicar, se identifica com uma turma, se apaixona e ficamos assim, sozinhos, sozinhos. Com ou sem twitter a coisa é complicada. É uma lógica que realmente, eu não entendo. Se a questão é proporção tem alguma coisa errada aí. Pra uns é muito fácil, se troca de companhia como quem troca de meias. Pra outros simplesmente isso não existe. O setor amoroso anda tão parado que é perigoso criar dengue. Será que a gente anda muito exigente? Ou será que os efeitos da guerra e do Titanic estão fazendo diferença agora? Afinal milhares de homens morreram nas guerras e quando o navio afundou, mulheres e crianças tiveram prioridade e lá se foram os homens pro fundo do mar. Acho que é mais difícil para as mulheres, afinal estamos em maior número.

A verdade é que dificilmente em uma situação dolorosa da sua vida você vai encontrar alguém especial. Isso só acontece mesmo com o Harvey e a Kate. Nós ficamos por aqui, sem saber se acreditamos e seguimos em frente ou desistimos disso e seguimos em frente.

Ah, vejam o filme. Como já disseram é uma delícia.

beijos


5 comentários:

Silvia Dias disse...

Eu descobri que estava sozinha, sozinha com 8 anos de idade. Eu era muito pequena para lidar com um conhecimento tão pesado e por isso passei a vida lutando contra ele. Mas lutei da forma errada, ou seja, projetando um desejo de companhia, um desejo de aceitação, um desejo de amor no Outro. Mas na maioria das vezes o meu desejo ofuscava a real companhia, aceitação e amor que o outro efetivamente me oferecia porque não correspondiam ao que eu procurava. Sabe, nossa conversa teve efeitos diferentes, em você e em mim: tanto que fiquei 2 dias totalmente offlline, um recorde! risos! Fiquei comigo mesma e gostei da minha companhia. Repassei o que anda acontecendo na minha vida e percebi que não estou sozinha: na verdade nunca tive tantos contatos tão reais com as pessoas como agora. Será que nós teríamos a conversa da sexta se ainda trabalhássemos juntas? E percebi também que tem muito amor no ar, tem muito amor que nos é dado. Mas na maioria das vezes não da forma como idealizamos, do jeito que queremos ou no momento que desejamos. Sabe aquela amiga chata que dizia que não estávamos abertas ao amor? Eu já tive várias, talvez vc tenha tido uma ou outra. Pois é: no meu caso, descobri que ela estava certa. E estou descobrindo que amor é muito mais amplo que romance. E que mesmo que não haja romance, pode haver felicidade. Por isso, não desanime: há esperança, sim! E como vc está amadurecendo + rápido q eu (no sentido emocional), pode ser q descubra isso antes dos 44 anos... risos! Bjs, silvia

Bruna Bernordi disse...

Filme simples, com diálogos maduro, boas atuações e bela paisagem.
Vale a dica!

FIRMA disse...

Basta assistir 5 min. do filme, pra se saber o final, mesmo assim é legal, afinal o ser humano não vive sem melodrama.

Bruna Bernordi disse...

Penso que nos dias de hoje as pessoas estão cada vez mais exigentes e idealizam os relacionamentos como em um filme, que o roteiro já está pronto no final.
Em tempos de internet parece que as coisas estão mais superficiais e troca-se o companheiro (a) que não satisfaz as expectativas como se troca de roupa.
Concordo com a Silvia em vários pontos:
Curtir a própria companhia é importante, não tem como se relacionar bem com as pessoas se não estiver bem com “você”. Uma observação que acho interessante, vocês já comentaram que vão ao cine sozinhas ou sei lá viajam sozinhas?
A reação das pessoas é sempre estanha, do tipo nossa mas você vai/foi sozinha?
Oras, qual o problema?
Também acho que pode não haver romance, já que o amor é o que faz a diferença.

Bjos

Lelê Aracil disse...

eu acho que com o passar do tempo, a gente ve tanta coisa, que acaba ficando insensível... cético...