28 de maio de 2009

Sai pra lá ! Nem encosta !

Vivemos em um mundo globalizado. Estamos cada dia mais conectados, atarefados, estressados, atrasados, adiantados, cansados, insensatos,irritados,afastados e mais um monte de "ados" decorrentes desse avanço mundial. Enfim, com tudo isso, com tanta coisa à nossa disposição e principalmente com tanta gente ao nosso alcance, em nossas redes de relacionamentos, nunca nos sentimos tão sozinhos como agora. E Por quê?

Pra mim é óbvio. Não sabemos mais nos relacionar.Perdemos nossa habilidade natural de lidar com seres da mesma espécie, de nos comunicarmos, de sermos claros, passar mensagens. Perdemos o hábito do abraço, do bom dia, do sorriso, da gentileza e da preocupação com o outro. Sonhamos com pessoas lindas e maravilhosas mas não sabemos conquistar nosso colega de baia. Não digo que devemos gostar de todos, isso é impossível, eu mesma desgosto de um monte de gente, mas o talento de se relacionar não pode enferrujar.

Na semana passada fui ao cinema (oh novidade!) e saí de lá pensando que, com essa história há uns 15 anos, esse filme seria considerado, no mínimo, bizarro.
A produção em questão chama-se A garota ideal (Lars and the Real Girl, EUA, 2007) e gira em torno de Lars Lindstrom (Ryan Gosling , ótimo!!), um jovem que vive sozinho nos fundos da casa onde o irmão Gus (Paul Schneider) e sua esposa grávida Karin (Emily Mortimer) moram. Lars trabalha, vai à igreja, mas, não tem muito talento para lidar com outros seres humanos.É bem caladão, na dele e com essas características poderia ser considerado um cara fora do padrão. Apesar das tentativas desesperadas de sua cunhada para inseri-lo na família, Lars prefere ficar só, com seus métodos, ajudando quando pode , sendo sempre muito prestativo e principalmente evitando o contato com outras pessoas. Nas palavras do nosso protagonista " quando alguém encosta em mim, sinto dor de queimadura, machuca". Anormal? Será? Analise comigo e você vai ver que nem tanto.

Um belo dia , nosso Lars resolve encomendar pela internet uma boneca de plástico, não confundam com boneca inflável. Uma réplica perfeita de uma mulher, tamanho, corpo, cabelos, enfim uma Barbie de 1,70 , como eu disse, perfeita. Ele chega em casa e para a alegria de todos diz que tem uma visita, uma moça que veio de longe e começa a dar características como se a conhecesse há séculos. Imaginem a cara da turma ao perceberem que Bianca na verdade é uma boneca!! A partir daí é a história de amor de Lars e Bianca , o resto da cidade assume isso e começa a tratá-la como sendo real, seguindo as orientações de uma médica que acompanha o caso de Lars. Bianca acaba conseguindo emprego, todos a cumprimentam e ela cidadã do mundo.

O filme toca em um assunto sério, como a solidão, de uma forma leve e engraçada. Passeia entre drama e comédia e muito do mérito é da roteirista Nancy Oliver ( da série A sete palmos) que em seu primeiro longa já foi indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2008. Palmas também para Ryan Gosling que empresta carisma e simpatia ao personagem, se não fosse o talento desse jovem e promissor ator, Lars não passaria de um doido esquisito. E por que esse filme seria estranho há uns 15 anos? Acho que seria impensável ver um jovem bonito colocando suas expectativas românticas em uma boneca! Criando o relacionamento perfeito com um ser inanimado, travando diálogos com ele e ainda por cima, sentindo-se completo e amado!

Eu super recomendo esse filme, não só por ser muito bacana, bem-feito e muito engraçado, mas também pra fazer a gente pensar um pouco até onde vai essa nossa busca. O relacionamento de Lars era levado só por ele, já que os assuntos propostos e as solulções encontradas eram todas ditadas por ele, seria, em termos, o relacionamento ideal pra ele, literalmente do jeitinho que ele quer. Mas o filme toma outro rumo e a gente vê que decididamente tem que ter muito talento pra lidar com gente. Há umas duas semanas vi uma mesma frase escrita em três lugares diferentes da cidade. A primeira vez foi no muro do Cemitério Consolação, depois na Av. Paulista e a última na Faria Lima. Talvez não seja a coisa mais bonita de se ler mas chama atenção, a frase diz exatamente isso (me perdoem pelo termo) O amor é importante, porra. Talvez um grito de revolta numa época onde carros e status são mais importantes que olhares apaixonados.

Não vou dizer que acredito 100% no amor, mas não consigo imaginar um mundo onde todos os seus habitantes não acreditam nele. Eu ainda preciso de alguém que me diga que vale a pena acreditar, mesmo que eu não leve isso a sério. Deus me livre todo mundo concordando comigo! Agora me diz se você não acha essa situação familiar!? Me diz aí se não conhece ninguém assim? A situação está tão feia que a gente (me incluo nesse pacote) prefere se isolar a ter que passar pelo processo de conhecer , se apaixonar e ,quem sabe, sofrer depois. Dá um trabalho danado. A gente já se esqueceu de como é bom se apaixonar, o medo fala mais alto. É um tal de emagracer, pintar e alisar os cabelos, mudar de cara e um monte de coisas tudo para se encaixar num suposto padrão. Estabelecido por quem mesmo? Não seria melhor nos relacionarmos com bonecos plásticos então? Seríamos aceitos por eles? Assim gordos ou magros demais, com cabelos cacheados,brancos, longos ou curtos?

É isso minha gente, quem puder confira a produção.Só não vale idealizar e depois se desiludir. Afinal de contas, gente como eu precisa de gente como você pra dar um "up" na crença e dizer que ainda vale a pena. Já dizem os muros da cidade: "o amor é importante, $%&*#¨@ !"

beijos


9 comentários:

Bruna Bernordi disse...

Inspiração master heim Dona Leila?
Adorei o post, o recado, a ideia, tudo.
Concordo com você amiga, o mundo está precisando de gente de cabelo despenteado, sabe?
Digo isso pois para aproveitar as coisas gostosas da vida não precisamos estar engomadinhos e "ajeitadinhos", veja bem: entrar no mar, viajar, correr, dar gargalhada, dançar, dar uns amassos, beijar, entre outras coisas, requer cabelo bagunçado.

Nossa que viagem.

Bjos sócia

De! disse...

Nossa, adorei... meu namorado é meio assim, quieto, estranho.. hhaha... por isso que eu tomei a atitude e o botei na parede, senão, era capaz de ele estar por aí com uma boneca... hehehe! E eu vi essa frase na Faria Lima tbm e concordo com ela, porra!
=)
Bjo

Gabia disse...

Leilinha,
Li o seu texto ontem, mas por alguma razão desconhecida desse mundo vitual sabotador não consegui comentar na página. Daí resolvi que ia falar sobre o texto pessoalmente, se fôssemos sair depois do trabalho para algum canto, para dar umas boas risadas reais. Resultado: não saímos. Daí hoje de manhã, vi essa frase na Paulista e me lembrei de você e do seu texto. Lá vai a conclusão: acho que você está correta e que os relacionamentos estão caminhando para a compra da amiga/ namorada de plástico. Lamentável. Mas posso dizer uma coisa? EU ME RECUSO A ACEITAR TUDO ISSO. Eu quero o abraço apertado, quero a briga cara a cara, quero a alegria do encontro e quero também a decepção, se for o caso. Por que não? Só assim a gente cresce e aprende. Quero o cabelo bagunçado, como a Bruna disse. E aproveitando esse momento de despedida, quero que você saiba que pode contar comigo quando precisar. Quem de fato merece o meu amor o terá por toda a vida.

Super beijos

Gabia disse...

Leilinha,
Li o seu texto ontem, mas por alguma razão desconhecida desse mundo vitual sabotador não consegui comentar na página. Daí resolvi que ia falar sobre o texto pessoalmente, se fôssemos sair depois do trabalho para algum canto, para dar umas boas risadas reais. Resultado: não saímos. Daí hoje de manhã, vi essa frase na Paulista e me lembrei de você e do seu texto. Lá vai a conclusão: acho que você está correta e que os relacionamentos estão caminhando para a compra da amiga/ namorada de plástico. Lamentável. Mas posso dizer uma coisa? EU ME RECUSO A ACEITAR TUDO ISSO. Eu quero o abraço apertado, quero a briga cara a cara, quero a alegria do encontro e quero também a decepção, se for o caso. Por que não? Só assim a gente cresce e aprende. Quero o cabelo bagunçado, como a Bruna disse. E aproveitando esse momento de despedida, quero que você saiba que pode contar comigo quando precisar. Quem de fato merece o meu amor o terá por toda a vida.

Super beijos

NarFC disse...

Boa, ótimos post ... ótimo filme ... vlw pelo filme mana ;)

Maaaaaas ... eu sou do tipo que não acredita no amor e o acha cego, surdo, burro e idiota!

Sorte do Lars ter encontrado uma "garota" que não dá palpites do q não sabe, não o quer mudar e nem liga para oq ele esta vestindo ... nao critica a familia nem os amigos dele, não emburra se ele quer assistir ao futebol na tv ao invés de ficar grudado com ela falando coisas melosas, muito menos fica fazendo ceninha se ele não estiver afim de discutir a relação ...

Affff ... só de falar nisso meu estomago embrulha...

Silvia Dias disse...

Adorei o texto e concordo 100%: o amor é importante! Ou melhor, é imprescindível! Tão importante quanto o ar que respiramos! É por causa do amor que alguém decide compartilhar suas percepçoes da vida em um blog, apenas para citar o exemplo mais à mão. Mas na questão da boneca, há um outro aspecto a ser considerado, que é a capacidade de RECEBER amor. Porque amor não é só amar, é também ser amado. E uma boneca pode ser amada. Mas ela ama? O nó da solidão não estaria na incapacidade de se sentir aceito e amado por outro? Refletindo a incapacidade de amar a si mesmo?

Mil coisas...

Lelê Aracil disse...

Post muito bom! Vi a frase na Faria Lima tbm.. depois disso, comecei a ver em alguns outros lugares, inclusive, no muro em frente a minha faculdade.
Essa busca pelo "par/amor ideal" não passa de uma utopia muito grande... Imagina só que chato seria ter ao lado A Pessoa Perfeita?
Me lembra uma coisa que eu disse uma vez há uns anos atrás... " Porque na vida da gente, tudo o que é perfeito, é feio"

Bruna Bernordi disse...

Lê, esse comentário é perfeito para o Dia dos Namorados!

R_obson disse...

é um filme que, por mais café com leite que seja, bota a cachola pra pensar.
Encontros, desencontros, bagunças sentimentais... É quase uma ópera bufa!
Tudo em nossa volta em meio a tanta gente boa que amamos, e outras que nem valem pensar. Ah, o amor...