11 de março de 2012

A mulher de preto

A vontade de ver Daniel Radcliffe fora do corpo do Harry Potter (que eu adoro!) me levou ao cinema hoje para conferir "A Mulher de preto" (The woman in black, 2012). Ah, o gosto por alguns sustos também contribuiu para essa decisão.

Vamos lá: advogado viúvo e com um filho vê sua carreira por um fio depois que a morte da esposa o desestabiliza emocionalmente. Decidido a reverter a situação, vai para o interior do país resolver uma encrenca de uma mansão cuja dona falecera recentemente.

O filme investe mais na atmosfera de suspense/terror que na ação em si. Imagine que não há nada mais aterrorizante que ser advogado, procurador ou investigador em filme de terror. E mais, não consigo pensar e paisage mais propícia para esse gênero que o interior ou litoral da Inglaterra. Cruzes! Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) se enfia nesse fim de mundo pra tentar resolver a vida. A mulher de preto do título é o espírito perturbado que Kipps encontra no local.


Dos longas que a Hammer Films - produtora britânica famosa por seus terrores góticos na metade do século 20 - realizou desde que voltou sob nova direção em 2008, A Mulher de Preto é o que mais se aproxima da linha consagrada da Hammer. Talvez venha daí a impressão de que seja um filme à moda antiga, que se preocupada não só com a direção de arte sinistra e com sustos de vultos, mas principalmente com a tal atmosfera.

Outra coisa bacana do filme é a briga entre as personalidades, o choque cultural dos personagens. O enredo não é novo. Morador da cidade grande (Kipps é londrino) chega no interior e não leva muito a sério as crendices dos nativos. Se vale da razão para desvendar as misteriosas e fatais aparições da tal mulher de preto.

O diretor James Watkins fez um trabalho bem digno contextualizando o longa dentro desse estilo de terror, destacando bastante a melancolia dos personagens. Essa linha mais gótica do terror não se "assusta" tanto com o sobrenatural. A impressão que dá é que a turma se conforma com ele e torce pra não ser a vítima da vez. Vai entender né.

Depois de tudo isso conclui que filmes que mesclam bonecas de porcelana, crianças, cadeira de balanço e brinquedos bizarros não são recomendáveis pra quem tem medo da descarga do banheiro (longa história).

Em suma, vale o ingresso sim, o mocinho ex-Potter forever mandou bem.

Veja lá e me conte.
beijos

22 de fevereiro de 2012

Marty: um legítimo working-class hero

Com um enredo absolutamente simples, Marty (EUA, 1955) é um filme muito eficaz do ponto de vista dramático.


Contando a história de um açougueiro de meia-idade que não consegue encontrar uma garota com quem se relacionar, a obra dirigida pelo então estreante Delbert Mann não deixa de ser tematicamente ambiciosa ao evidenciar, em plena década de ouro da história recente dos Estados Unidos (quando surgem o Rock’n’Roll e seus “bad boys” James Dean e Marlon Brando, o selvagem), os medos e dúvidas de um ítaloamericano de coração mole e cabeça dura.


Nesse sentido, aspectos como o ambiente social em que o personagem-título está inserido (destaque para a crueza machista dos amigos suburbanos de Marty) e a relação invasiva/dependente entre ele e sua mãe italiana são essenciais para que percebamos os dilemas e as pressões a que Marty está diariamente exposto. Claro que nem tudo é roteiro e é preciso dizer que Enest Borgnine entrega a atuação de sua vida ao solitário Marty.


Essa cruel solidão é substituída por uma cruel incerteza quando Clara, uma adorável professora, surge em sua vida (em mais um sábado à noite no clube Stardust Dance Hall). Como não poderia deixar de ser, ela também se sente solitária, não muito bonita e perto de se considerar “definitivamente solteira”.


Pronto. Aí está a grande “trama” do filme: o garoto solitário encontra a garota solitária. Nenhuma morte dolorosa, nenhuma grande guerra atrapalhando a “lua-de-mel” parisiense.

Claro que ele terá de suportar uma grande resistência por parte da família dela e lidar com muito ciúme do lado de sua mãe e amigos, mas não há nada além disso, no bom estilo “a vida como ela é”.


De maneira astuta e sofisticada, o roteiro de Paddy Chayefsky parece entender que não é preciso criar conflitos outros. Não há drama maior do que contrariar todos que o cercam em nome de algo tão abstrato, e incerto, como o amor.


Ainda assim, é o que nos resta. E devemos muito a Marty por isso.


Nota do Cineopses 1: Em 1959, em Moscou, foi o primeiro filme estadunidense visto na União Soviética desde a Segunda Guerra Mundial
- Este é o remake de um filme de TV de 1953 do mesmo nome, com Rod Steiger no papel-título
- Com 90 minutos de duração, é o menor tempo de execução de qualquer filme a ganhar o Oscar de Melhor Filme
- O primeiro filme americano a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes

- Em 1956, conquistou os Oscars de Melhor Ator (Ernest Borgnine), Direção, Melhor Filme, Roteiro e foi indicado aos de Ator Coadjuvante (Joe Mantell), Atriz Coadjuvante (Betsy Blair), Direção de Arte e Fotografia


Nota do Cineopses 2: Sim, até que enfim esse humilde blog foi agraciado com a presença dele, Daniel Consani! Jornalista, editor, escrivinhador, cinéfilo, fã de zumbis e outras coisinhas atípicas, ele tarda mas não falha! Curtiu? Conta pra ele: danielconsani@hotmail.com

Dani, o Cineopses agradece!! Volte sempre!


7 de janeiro de 2012

Românticos anônimos

Filmes franceses são sempre surpreendentes. Os dramas e romances geralmente são de cortar os pulsos (com faca de rocambole de preferência), os históricos e biográficos louváveis e as comédias... ah as comédias. Tão leves e inteligentes que há quem diga que nem são engraçadas (pobres pessoas).

Essa semana me encantou o longa Românticos Anônimos (
Les Emotifs Anonymes, 2010). A situação nos é familiar. Uma sensação de pânico total quando se está perto de alguém por quem sentimos alguma atração, ou, diante de plateias. Pessoas tímidas entenderão bem o que eu digo. Aquela hora em que o universo (e automaticamente o seu coração) param quando você tem que simplesmente perguntar as horas à um estranho, receber um elogio, fazer alguma apresentação... enfim. O pânico que toma conta da gente quando a palavra "relacionamento" entra na história. E aí não apenas no sentido amoroso, interagir é sofrível pra gente.


Agora, se para uma pessoa normal isso já é complicado, em se tratando de questões do heart, imagine para uma pessoa tímida. Pegue tudo o que escrevi acime a eleve à décima potência e você terá o cenário da vida de
Angélique (Isabelle Carré) e Jean-René (Benoît Poelvoorde). Ele dono de uma chocolateria em falência e ela uma chocolateira de mão cheia que, por conta desses probleminhas de timidez não consegue faser uso de todo esse talento.

Pegue como pano de fundo essa delícia chamada chocolate. Seu preparo, suas formas, diferentes sabores e cores... hum... é justamente ele que liga os caminhos de Angélique e Jean-René.

É uma comédia despretenciosa e nos 15 primeiros minutos você meio que já imagina o que vai acontecer mas daí já é tarde, você já estará completamente envolvido pela magia da história. As situações cômicas, o desespero no diálogo entre os personagens (que dão até agonia na gente de tão real) e o excelente time de coadjuvantes tornam esse longa de 80 minutos uma experiência saborosamente inesquecível.

Românticos anônimos tem um roteiro espirituoso e inteligente. Química total entre os protagonistas e, como disse, um time de peso para dar apoio. A trilha é algo para se prestar atenção também. Eu confesso ser fã de comédias românticas. Já vi de tudo, mas acredito ser a primeira vez que alguém retrata tão bem a aproximação de duas pessoas tímidas. Quem está nesse barco sabe do que eu digo (ou quem acompanhou alguém desse jeito também sabe), é realmente penoso. Por mais que a vontade de estar junto e gritar aos quatro ventos o que se sente, acredite, as vezes a vergonha é maior e a gente.


Por isso, eu digo com conhecimento de causa: por mais cômicas e absurdas que as situações do filme pareçam elas imitam sim a vida real.

Dica: se prepare para sair do cinema se sentindo amigo do casal e com uma vontade louca de comer chocolate.

Corra lá, veja e depois me conte.
beijos

25 de dezembro de 2011

O Concerto

Nada melhor para uma tranquila tarde de natal do que um filme que traga um renovo de criatividade aos filmes clássicos sobre maestros decadentes ou conseguem misturar, na dose certa, comédia, drama, ironia e boa música.

O Concerto (Le Concert,2009), um verdadeiro tour europeu foi produzido por nada menos que cinco países: França, Rússia, Itália, Bélgica e Romênia), traz a história de Andrei Filipov (Aleksey Guskov), um renomado, talentoso e respeitado maestro da orquestra de Bolshoi que perde seu posto e acaba tornando-se faxineiro no teatro. As razões desse "golpe" você descobre no fim do filme, então vá ver !

Já ouviram o termo "ouvido absoluto"? Pois bem, é o talento que distingue um maestro de um musicista. Esse dom consegue, em meio há diversos instrumentos, identificar quem está fora ou perdeu uma nota no caminho. Filipov era uma lenda, apaixonado pela música de Tchaikovsky e que ainda sonhava em reunir uma orquestra.


Tudo mundo no dia em que ele intercepta um fax que convidava a Orquestra de Bolshoi para uma apresentação no chiquérrimo teatro parisiense Du Châtelet. Adivinha se essa fax sequer chegou aos mãos do diretor da orquestra? Sem pensar duas vezes, Filipov reúne seus antigos amigos e músicos, que agora são motoristas de ambulância, ciganos, açougueiros, arranja um agente e responde a carta em nome da orquestra. Detalhe: ele tem 15 dias para reunir os músicos, escolher a programação e encontrar uma excelente violinista.

A partir daí vemos uma série de situações cômicas e dramáticas, que nos envolvem e ao mesmo tempo nos deixam tensos (e se descobrem que eles não são a verdadeira orquestra???) No meio de tudo isso uma das maiores violinistas da França aceita tocar com eles, pelo nome dom maestro, sem saber que essa não é a orquestra de Bolshoi. Cada integrante desse grupo carrega uma história de uma parte do continente. São judeus, poloneses, russos, romenos, todos com uma coisa em comum: o amor pela música.

A insanidade e a paixão do maestro os leva a encenar essa situação e o que temos no final é um resgate magnífico de uma Rússia em frangalhos pós União Soviética.Tudo isso com um humor encantador, um ótimo tino de comédia e um belo roteiro que guarda boas surpresas para o final.


O longa, do cineasta romeno Radu Mihaileanu, foi indicado a quatro prêmios César (levou os de trilha sonora e som) e ao Globo de Ouro de Melhor Filme em língua não inglesa.

veja lá e me conte depois!
beijos!



5 de dezembro de 2011

O Palhaço

Encantamento. Não dá pra sentir outra coisa vendo o novo e delicioso filme de Selton Mello. O Palhaço (O Palhaço, Brasil,2011) se mostra uma das mais adoráveis produções nacionais do ano. Ao menos pra mim ok. Uma viagem emocionante ao interior de um Brasil empoeirado e batalhador. Uma viagem ao interior de um palhaço em conflito e "sem graça".

O filme conta a história de Benjamin (Selton Mello), um palhaço que acha que já não tem mais graça, que está perdido em busca de uma razão. Um palhaço que, além de fazer o público rir, ainda tem que pensar nas mazelas de administrar o circo Esperança (nome mais que adequado), pertencente ao seu pai, o também palhaço Puro Sangue (magistralmente interpretado por Paulo José).

Durante a viagem dessa trupe é possível se pegar lembrando de várias coisas de infância. Ao menos quem viveu no interior vai entender o que eu digo. A paisagem empoeirada, a terra que levanta voo, o calor e a beleza tocante de lugares a ingenuidade no olhar dos moradores, fazem voltar no tempo. A melancolia que briga com a imagem do palhaço mexe com a gente. Não há como não se apaixonar pelo protagonista e se pegar torcendo por ele. Reparem na brasilidade do filme, como cada detalhe foi pensado, fotografia excelente. Leia as placas e depois me conte. As filmagens foram feitas em cidades mineiras.

A trama é simples e seria mais um filme sobre conflitos interiores não fosse a condução de Mello (também diretor e roteirista) e o conjunto de personagens que torna o longa tão completo. Fora a sensacional atuação de Paulo José, numa verdadeira aula de interpretação , há ainda a participação mais que especial de Moacyr Franco (que este ano completa 75 anos e foi aplaudido de pé durante a exibição do filme no Festival de Paulínia). Aliás, Moacyr foi uma surpresa pra mim viu, em seus pouco mais de 2 minutos de aparição, ele ensina como contar uma boa história. A ótima trilha sonora que mistura memoráveis hits bregas dos anos 70, época em que o filme se situa, é um personagem à parte.

Reza a lenda que o roteiro deste filme nasceu de um momento de "crise criativa" de Selton Mello. Não sei se é verdade mas, se for... quero uma crise criativa dessas! Mais uma prova de que Selton Mello é dos dos atores mais completos do Brasil.

Mais sobre o Palhaço? Não sei mais o que dizer. Poderia ficar só elogiando e procurando reproduzir o encanto que o filme conjura. Mas é melhor simplesmente recomendá-lo com muito, mas muito entusiasmo.

beijos